Onde a loucura começou

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Eu comecei a trabalhar muito cedo. Aos 11 anos eu era babá de uma menina que tinha quase a minha idade. Fazia companhia pra ela e ajeitava a casa, mas não tinha que cozinhar ou lavar. Ganhava pouquinho e ainda tinha que ajudar em casa, pois meu pai sempre exigiu que as filhas contribuíssem com qualquer valor para as despesas da casa. Só ele trabalhava, tadinho, a vida era difícil, a pobreza era tanta que qualquer dinheirinho que entrasse já ajudava a passar o mês menos apertado!

Pois bem, mesmo ganhando pouco e ajudando em casa eu sempre gostei de comprar roupa. Sempre! Minhas irmãs são testemunhas. Dava um jeitinho, fazia troca com as amigas, mas sempre conseguia de sair com uma roupinha diferente no domingo, por exemplo. Quando eu conseguia comprar uma roupa nova eu ficava tão feliz! Quando era criança sempre usávamos roupas doadas (não vejo nada errado nisso!) e só ganhávamos uma roupinha nova no Natal, então quando eu podia comprar uma nova era como se a coisa mais maravilhosa do mundo acontecesse.

Em um fatídico dia aos 16 anos,  aconteceu de eu ter que sair para ir a uma gincana com o namorado da época e não ter o que vestir. Fui ao guarda roupa de três portas que servia a todos da casa e separei umas pecinhas e nada ficava bom. As roupas eram poucas e compartilhadas e nada me agradava. Já tinha usado tanto todas elas que já estava enjoada. Aquilo doía tanto. O namorado esperando e eu morrendo tentando achar uma roupa legal e que agradasse. Mas nada! Eu não chorei esse dia, mas fiquei tão triste olhando aquelas poucas peças de roupa e prometi pra mim que nunca mais sentiria aquilo novamente. Que não sofreria por causa de roupa.

Mas as promessas de uma garota de 16 anos são esquecidas na mesma velocidade com que são feitas. E eu voltei a sofrer muitas outras vezes até que arranjei outros empregos em que ganhava pelo menos um salário mínimo e podia comprar as roupinhas que quisesse. Já comprei muito na mão de sacoleiras e, como elas dividiam o pagamento a perder de vista, sempre podia ter uma coisinha nova e ficar feliz esquecendo, momentaneamente – pois ele voltaria e me assombrar tempos mais tarde –  aquele dia horrível de não ter o que vestir pra sair com o namorado…

Humm… A da direita que usei ontem ou a da esquerda usada na terça?