Sobre vícios, esmaltes e maquiagem

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No primeiro período da faculdade estudei a disciplina de análise sócio antropológica relacionada à educação, que é a minha área profissional, e meu professor citou uma oração que me incomodou profundamente: “somos produto do meio e a quase totalidade do que achamos ser gosto pessoal é plantado em nossas cabeças pela sociedade” (as palavras não foram bem essas, contudo era esse o sentido). Uma colega até exemplificou a fala do professor dizendo ter assistido no fantástico na noite anterior uma reportagem falando “estar na moda” a tal calça de cintura alta e que ela tinha certeza que na semana seguinte muitas mulheres estariam usando tal peça mesmo que não as vestisse bem. Na hora fiquei ouvindo a achando tudo uma baboseira. Sempre me considerei uma pessoa sensata e dona dos meus gostos. Pensava que nunca seria alvo de qualquer tipo de influência em qualquer aspecto da minha vida. Como assim até o que gosto ou não seria, não uma subjetividade minha, algo que a sociedade impôs? Não levei aquilo a sério.

Passou-se o tempo, eu curti, usei e deixei de gostar de várias tendências de moda. Quando não queria mais usar uma peça de roupa do armário achava que era apenas enjoo de ver tanto a mesma vestimenta e que gostava de diversificar. Mas enjoo sem nem usar? Ou de usar uma vez? Algo estava errado!!!

No finado Orkut eu fazia parte de uma comunidade onde se partilhava os lançamentos de uma marca de roupas do Rio. As meninas compravam e postavam fotos das roupas (marketing perfeito e gratuito para a marca) e aí foi minha ruína! Eu ambicionava tudo que via e ficava péssima se não conseguisse adquirir a peça desejo que todo mundo queria. A loucura por esta marca foi tanta que perturbava vendedoras e algumas amigas de outras cidades para não perder a peça mais desejada da coleção. Com o tempo esse vício foi deixado de lado cedendo lugar à loucura pelos esmaltes que aspirava de todas as cores e efeitos existentes até que fui cair na maquiagem. Gente, eu que NUNCA gostei de maquiagem me peguei pagando 60,00 em um batom da MAC, desejando uma sombra da UD que custava os olhos da cara e me entupindo de bases, pós, sombras… Tudo para ficar enfiado em uma gaveta do armário sendo usado vez ou outra. Maquiagem tem data de validade e certamente perderei algumas.

Por que fazia isso tudo? A internet e as páginas que visitava aliadas ao meu momento altamente influenciável e desejoso de ser diferente, mas aceita no grupo, contribuíram imensamente para que eu mergulhasse nessa lama. Inconscientemente eu não queria ser diferente, mas igual a todo mundo, pois se eu não tivesse a roupa-esmalte-make do momento estaria sendo passada pra trás ou seria cafona. Não aceitava isso!

Esse tempo passou!

Há mais de um ano tenho feito o exercício de analisar qualquer vontade minha. Observar bem se é um vício começando, se é apenas um querer passageiro ou realmente será algo útil, usável  e que quero de verdade. Claro que mil vezes dou um passo pra frente e volto dois (nesse momento enquanto escrevo tenho um carrinho de compras de esmaltes lotado esperando ser finalizado), todavia não baixo a guarda, pois bem já dizia a oração “orai e vigiai”…

Dessa forma, para possuir somente o necessário, exerço a criticidade ao ler em blogs – que foram os maiores causadores do meu consumismo – se a vida vendida por eles não passa de fantasia (na maior parte é) e se transformará em mais um vício na minha.

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